<$BlogRSDURL$>

Do mal o menos

sexta-feira, agosto 19, 2005

Vingança: uma estória para esquecer 



E eis que surgia a oportunidade da vingança. Tentar fazer pagar com a "mesma moeda" o que a desagradou. E fê-lo sem piedade.
Estremeceu. Pena? Estranho sentir isso.
Duas ou mais vezes sentiu lágrimas nos olhos, lágrimas de emoção. Mas que sentimento estranho este, posto que nunca se permitira sentir, nem pensar em nada que não fosse apenas na vingança. Agora, nesses poucos minutos, abaixando a guarda, estava aturdida com as sensações dela emanaram, confusas, sem definição ou forma. Uma coisa forte no coração... como quase uma paz. Apercebeu-se que nada daquilo fazia sentido.

Mas... ele aproveitando-se deste baixar de armas aplica-lhe o mesmo golpe que tinha anteriormente originado a sua vontade de vingança. Ela nem queria acreditar. Para além de todo o seu plano ter ido por "àgua abaixo", ele, com requinte intencional, aplicou-lhe o mesmo golpe.
Tudo tinha voltado ao início com a agravante da derrota e da humilhação.

Era como se ela tivesse morrido e renascido. Morreu a inocente e renasceu num desejo de vingança acompanhada agora de odio puro. Quando a inocência morre, nasce a ironia que é irmã do ódio, filha da dor, noiva da imbecilidade Era o assombroso efeito da vingança. Mal dormia e mal comia, pensando numa maneira de o destruir, arruinar. Às vezes sentia-se só, perdida no conflito de suas emoções e quando durante as madrugadas o ódio lhe subia ao coração, rolava de um lado para o outro da cama, sem conseguir esquecer. E essas lembranças torturavam-na. Quando a angústia atingia um ponto intolerável, ela gemia. Gemia, porque não se permitia chorar. Gemia alto, com suas feições se deformando.

Dentro dela crescia uma ansiedade gelada. Mentalmente via e revia as cenas.

Agora só pede desesperadamente- ao tempo que, ao passar, reduza a intensidade do ódio que a impede de viver e que torna a sua existência insustentavel. Porque quanto a ele- insuportavelmente- já não havia nada a fazer.
E deseja que a reacção dele não coincida com a sua intenção e que por isso viva com um insuportavel sentimento de culpa de um proposito/ desejo não concretizado, por um dia ter preferido a guerra à paz. Porque jamais verá um olhar ou ouvirá uma palavra sua. Dela só terá a gelada indiferença.
E será esta a sua vingança.


"O amor perguntou ao ódio: Porque me odeias tanto? O ódio respondeu: Porque um dia eu te amei demais."

[texto adpatado]

Comments:
Fantástico!
 
obrigada pela visita e pelo comentário.
um abraço
 
Às vezes em situações extremas é esse sentimento tão mesquinho que nos dá força para seguir em frente e mantermo-nos vivos.
Mas quando se é feliz e se está de bem com a vida a vingança deixa de fazer sentido.
 
Pessoalmente gosto de pensar que quem ri por ultimo ri melhor...e sem sequer mexer um dedo para isso...
 
Após um grande amor que acabe de forma frustrante para uma das partes e ainda mais quanda essa mesma parte abdicou de muita coisa, é natural que surja, não um odio mas um amor invertido que nos leva a tentar magoar o outro para que compensar os danos que ele nos infligio, mas o tempo tudo cura, e amor que deu em odio ocupará o lugar da indifrença..
beijinho;
 
O ódio é uma forma de disfarçar a dor. Até ao dia em que toma forma própria e já não se sabe pq se odeia tanto, mas isso já não interessa... pq já não se desiste de odiar.
 
É verdade que o amor e o ódio são tão opostos que se tornam muito proximos... perigosamente proximos! Daí a passagem de um para o outro, esteja no fio da navalha...!
Gostei da maneira como escreveste a relação amor/ódio...
Beijo
 
Conclusão da história; nunca se deve ter demais, nem de menos, aproveitar sempre a dose adequada para o sofrimento não ser tão intensamente desgastante...

Numa balança (das antigas) existem sempre dois pratos, símbolo de justiça. Gostei!

Beijos
 
O amor só pode entrar se não existirem sentimentos menores como ódio e vingança.

Não concordo quando e diz que o ódio está perto do amor, são dois sentimentos antagónicos. É quase como o Bem e o Mal.
 
O amor e o ódio são sem dúvida dois sentimentos opostos, mas a sua existência está interdependente, sem um não existe o outro.
A vingança nada tem a haver com o amor ou com o ódio, própriamente ditos. A vingança é o produto da nossa frustação, é a forma mais imprópria de reagir, pois ela sempre nos faz mal e por vezes mais mal do que o que queriamos fazer a outrem.
Um beijo do pai
 
Trinta, que texto magnífico, já o li 2 ou 3 vezes, e sinceramente não o consigo comentar!
A realidade, muitas vezes, não tem que ter explicação ou ser comentada, quanto muito pode ser descrita e cada um que entenda como quiser!!!
Bjx
 
A vingança é uma seca!
 
Gostei! Sempre digo que só odiamos quem amamos um dia... quanto à vingança, é um prato que se come frio...
 
Enviar um comentário

[Top]